tudosobrenada

15/04/2008 15:24

AS CRÔNICAS DO MUNDO PREVISÍVEL

TOMO 1

CAPÍTULO 3 - Justiça seja feita
Justiça para Todos OU De como Bala na Cabeça morreu duas vezes.


E com um zunido seguido por um estouro, a vida de Jackson Gall mudou para sempre.

Acordou de repente, com uma sensação esquisita nas pernas. Chamar isso de sensação é de um terrível mal gosto, já quele ele não era capaz de sentir as próprias pernas.
Não se desesperou. Era um policial preparado para o pior. Mesmo que o pior fosse não sentir os membros inferiores e ter a visão totalmente embaçada.

Estava grogue, zonzo e sonolento. Teria bebido demais, talvez? Notou que a vista embaçada enxergava um branco intenso. Hospital? Definitivamente estava em um hospital. Sim, era um hospital!

Se acalmou um pouco, pois estava em um lugar de curas, e issosignificava que alguém zelava por seu bem-estar. A visão foi voltando à sua normalidade, assim como um leve movimentar dos membros inferiores. Precisava descobrir há quanto tempo havia dormido e onde estava.

As horas passaram lentas até conseguir o movimento total das pernas. Jackson era policial. E, para tanto, precisava ser paciente. Três longas horas já se haviam passado quando alguém forçou a porta do quarto. Jackson voltou ao estado semi-catatônico e somente observou enquanto o enfrmeiro preparava uma solução que lhe pareceu soro.

Surpreendeu o pobre rapaz, pegando-o pelo pescoço e o sufocando. "Onde estou e que dia é hoje?", indagou, norvoso. Seu treinamento militar, nesse ponto, não significava muito mais, afinal sua paciência se havia esgotado rapidamente.

Soltou o homem, mas não por compaixão ou arrependimento, mas por que se surpreendeu com a resposta à sua pergunta. Estava em casa, em sua cidade, mas quatro anos no futuro.

Dormira o sono dos eternos e retornara à vida...
Fora vítima de um acidente, e nada mais sabia do enfermeiro. Desculpou-se e tentou se levantar, mas ainda não tinha forças. Acabou por adormecer.

Acordou horas mais tarde em meio a um intenso calor. Cambaleante, conseguiu se arrastar até a porta do quarto, mas queimou as mãos ao tocar na maçaneta, que fervia. O hospital estava em chamas e já havia respirado muitoa fumaça. Jackson era policital e sabia que estava às portas do Hades.

Quase perdera a consciência quando avistou uma figura feminina alta,com um longo vestido rosado. Ela parecia flutuar. "É agora", ele pensou. "Nossa Senhora veio me buscar". A silhueta rosa tomou-lhe pelo tronco e saiu flutuando pela janela aberta.

Jackson acordou muitos dias depois, em outro hospital. Repetiu a pergunta à bela enfermeira ruiva que lhe pretava atendimento, mas dessa vez com mais calma.
Continuava em sua cidade e somente alguns dias havia se passado.

Do outro lado da sala, um aparelho de tubovisão exibia imagens de um incêndio grandioso. No meio das chamas pairava uma figura de vestido rosa. "Tive um sonho assim", balbuciou. A enfermeira respondeu que fora ela, A Donzela, quem havia salvado a vida de Jackson. Não fora um sonho, fora real.

O ex-policial recebeu alta dias depois e, não tendo outro lugar pra ir, foi ao antigo distrito policial onde passava grande parte de seus dias.

Caminhou por seis ou sete minutos até chegar à rua Elm. Parou em frente ao número 712, um grande casarão. Havia alguma coisa errada. O casarão era velho, então não poderia ter sido erguido recentemente. Mas então, por que ali não estava a 12ª, o distrito policial que tantas recodações traziam a ee?

Parou um sehor que passava e indagou sobre a casa, no que o simpátido velhinho respondeu: "Deve ser turista, imagino. Essa é a casa de Khimera Hunt, A Donzela: maior heroína de Halópolis".

Sentado em um café, do outro lado da rua, Jackson olhava atentemente as janelas do casarão. Teve a sensação de ver um vulto magro e alto quando sua atenção foi desviada para a porta do casarão, que se abria e revelava uma estranha luz verde.

A luz o parecia chamar. E ele foi até ela. Nem percebeu quando a porta se fechou atrás dele. Uma agonia profunda tomou conta de Jackson ao ver a imagem de duas crianças que brincavam com a mãe em um parque.
Ajoelhado e aos prantos, Jackson sentiu o suave toque de uma mão macia em seu ombro. "Lembre-se", dizia a dona da mão.

"Lembre-se de sua esposa e filhos. Lembre-se de sua casa e de tudo o que foi tirado de ti. Lembre-se das Pistolas de Fogo e de como elas distriuíram a justiça com seu disparo incessante e infinito. Lembre-se de uma vida toda destruída pelo homem de cartola. Lembre-se Jackson".

A voz falava diretamente em sua cabeça. Jackson agora entendera tudo e tinha uma nova missão. Em suas mãos apareceram as Pistolas de Fogo, cujas balas somente procuram a justiça.

Um zunido e um estalo!

A Donzela estava morta, com uma bala alojada entre os miolos.

Jackson levantou os olhos, somente para fitar uma figura sombria. Então, abaixou-se novamente. E, de joelhos, reverenciou seu mestre, que vestia somente uma calça preta e uma cartola azul marinho.

"Muito bem, meu filho. Muito bem, Bala na Cabeça. Livre da programação mental que a bruxa colocou em ti, agora você será livre para fazer o que eu ordenar.
Livre".

E ouviu-se uma gargalhada por todo o quarteirão...

Retirado do livro de Contos da Acádia, de Kimota Jones e Barbara Zolomon (com a ajuda de Sophia Zolomon).
enviada por Arq do Desconhecido






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